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Editorial - 31/10/2006

Me deixa gozar

Pronto, agora passou.

Acabaram as eleições.

Então dá pra colocar a paixão de lado, né?

Não se trata mais de convencer o outro do seu ponto de vista para conseguir um voto, então desarme os ânimos.

Eu sei que os 61% de votos válidos recebidos pelo presidente Lula foram um sinal claro do que o nosso povo pensa: é melhor com ele.

Talvez seja mesmo.

Juro que consigo entender o pragmatismo dos que acreditam que é melhor o "Lula lá", com todos os deslizes éticos escancarados, do que a velha elite de sempre, com seus deslizes éticos muito bem camuflados.

Vendo do lado de fora, acredito que o Bolsa Família deve ter sido um ótimo programa social, pela resposta popular manifestada nas urnas.

Entendo também o raciocínio relativista dos que crêem que, com ele no poder - ele, o "presidente operário" - o Brasil pelo menos se arrisca num caminho novo, depois de séculos de abusos dos "presidentes doutores".

Entendo até a bondade dos que enxergaram os erros mas votaram no Lula para dar-lhe uma "segunda chance", pra ver se ele se dá conta da grande decepção que causou e conserta os estragos.

Em relação aos que crêem piamente na inocência do presidente, ah, esses têm minha total simpatia. Invejo - sem nenhuma ironia - a capacidade de sentir essa fé cega, irrestrita, que desafia a lógica.

Fui ficando muito cético depois das porradas da vida.

A última e uma das maiores, aliás recebi recentemente, com o ocaso moral do primeiro governo Lula.

É por respeitar sua fé que eu perdôo você, que escreveu me ofendendo, só porque hoje não estou com uma faixa verde e amarela na testa cantando o jingle do presidente eleito.

Pelo contrário, zoei o jingle dele.

Depois de tantos anos de janela, sabia o que me esperava ao inaugurar o day after da vitória lulista com críticas.

Sou um veterano jornalista.

Conheço o processo que se repete com qualquer governante nesse Brasil esculhambado: lua-de-mel, decepção, revolta. E as mesmas opiniões que soam hoje heréticas em seis meses se tornarão o espelho do inconsciente coletivo.

Por que eu simplesmente não esperei?

Talvez porque, como diria Caetano, "Um amor violento, quando torna-se mágoa, é o avesso de um sentimento, oceano sem água". Talvez porque eu tenha acreditado mesmo que o primeiro governo Lula seria um marco: o início da construção de um modo mais honesto de se fazer política no Brasil.

Talvez porque eu esteja incontrolavelmente irritado pelo fato de que ainda esperarei pelo menos mais quatro anos para conhecer uma nova proposta de governo honesta e viável, que me convença. Talvez porque, neste momento, o líder capaz de implementar essa mudança não esteja visível no horizonte. Talvez porque esse messias nunca venha, ou pelo menos não venha durante meu tempo de vida.

Então por mais que eu respeite sua fé cega ou seu pragmatismo, vou pedir que você me deixe manifestar minha desilusão com o sarcasmo que meu ofício de cartunista me permite.

Sim, porque é uma democracia, não?

Continuo achando que fiz o melhor anulando meu voto.

Tucanos de novo? Alckmin? Deus me livre.

Mas não reconheço o Lula como meu presidente.

E quer saber? Mesmo se reconhecesse e estivesse feliz da vida, a charge de 31/10 não seria muito diferente. Eu tiraria sarro do mesmo jeito, porque esse é meu ofício.

Então relaxa, vai.

E não vou te pedir desculpas porque você sabe que eu te respeito muito.

Tô zoando é o Lula.

(Maurício Ricardo, criador do Charges.com.br, recebeu dezenas de e-mails criticando sua charge de 31/10/2006. Mas a boa nota da charge no ranking mostra que ele não está só no universo)

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