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Editorial - 24/08/2004

Porque a Daiane

"Eu realmente acho que vc pisou na bola com o Robert Scheidt. Tá bom, concordo este é um site de humor e a analogia com o nosso cotidiano na charge foi bem feita, mas acho que vc se contradisse ao dar parabens para a Daiane, que conseguiu o 5º lugar(que não é má coisa) e nem ao menos fazer o mesmo com o Robert Scheidt, nosso o único medalhista olimipico até agora." (Tiago - Barretos - SP)

Em 11 de setembro de 2001 eu resolvi pela primeira vez na história deste site fazer uma charge que não fosse engraçada. Claro que fiz milhares de charges sem graça nenhuma, mas antes dessa data sempre havia sido por incompetência, nunca pela decisão consciente de passar uma mensagem "séria".

Temia cair na pieguice. Imaginava que o pessoal que entra aqui só quer dar risada. E que se eu tentasse falar sério uma avalanche de e-mails mal criados me lembraria aquela frase clássica que eu mesmo uso com freqüência pra responder a cobranças: "Este é um site de humor!".

Mas 11 de setembro foi um dia forte e acabei não resistindo: traduzi "Imagine" do John Lennon e casei com cenas das torres gêmeas. Uma charge absolutamente piegas, mas muito bem intencionada. E qual não foi a minha surpresa ao ver a resposta dos internautas: a tal charge (hoje fora do ar) chegou ao Top. E eu me senti liberado pra usar o recurso da "mensagem séria" quando a causa fosse nobre.

Vieram outras: aquela com a voz do Senna na vitória do Brasil na última Copa. "Masters of War" do Bob Dylan e "O Senhor da Guerra" do Legião, sobre as loucuras belicistas do Bush.

Todas figuraram por algum tempo no "Top Charges" e é fácil entender porque: como elas têm apelo emocional, o internauta generoso acaba dando sua nota não pra charge em si, mas para a causa que ela defende.

Agora acompanhe meu raciocínio: este site é meu ganha-pão. Preciso agradar o internauta pra que ele volte sempre. As homenagens se mostraram um filão e tanto. Era de se esperar que eu - que sou louco, mas ainda não jogo milho pra helicóptero - desse um jeito de fazer charges assim periodicamente, certo?

Mas aí é que está o problema: como cartunista, sou bastante crítico. Simplesmente não consigo sair homenageando, sem nenhuma dosezinha de zoação, quem realmente não toque este meu surrado coração sofrido.

E é por isso que, mesmo vibrando com o ouro do Robert Scheidt, passei batido por ele e fui homenagear logo a Daiane, com seu modesto quinto lugar.

Eu bem que queria, mas o ouro do Scheidt não me emocionou. Achei ótimo, claro. Mas emoção de verdade não rolou. E essas coisas a gente não controla. Fazer o que?

Este é um pedido de desculpas de verdade.

Queria mesmo ter pensado em algo bonito e sincero pra dizer pra ele, garantindo provavelmente mais uma charge com notinha boa. Mas pra começar, quando se vive no interior de Minas como eu, o iatismo se torna um esporte distante como o snowboard. Depois vem o fato de que, mesmo respeitando muito o feito dele, acho que é uma conquista mais previsível: o pai já velejava, ele tem grana, casa em Ilha Bela... Nada que diminua a importância da conquista, repito, mas estamos falando aqui de emoções, certo?

E aí vem a Daiane: origem humilde, um sorrisão de orelha a orelha, com aquele aparelho de metal. Negra, como nenhuma outra ginasta olímpica com chances de ouro. Começou tarde e ainda arrebentou o joelho de tanto treinar. Não se limita a seguir a cartilha: inventa novos saltos e deixou seu nome marcado pra sempre no seu esporte.

Ah, dá-lhe pieguice mas não resisti: pra ela me senti motivado a fazer uma charge séria e bonitinha. Então espero que os internautas que, como o Tiago, não entenderam minha incoerência vejam o lado bom da coisa: mesmo tendo sido injusto com o Scheidt, agora vocês sabem que quando homenageio alguém com uma charge nunca é pelo desejo hipócrita de agradar. É do fundo do coração.

Maurício Ricardo Quirino, presidente da holding Charges.com.br, parece escroto mas é só um libriano de coração mole.

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