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Editorial - 21/03/2004

Blefamos

Ok, mulherada, a gente admite: a casa caiu.

Enganamos vocês sim, por muitos e muitos anos. Pulamos compulsivamente a cerca. Abusamos do sexo casual. Compartilhamos as aventuras com nossos iguais, contando tudo com detalhes nas rodas de bar. E abafamos nossa culpa na repetição do argumento, herdado de nossos pais, de que temos uma natureza predatória inadequada à monogamia. De que nosso gênero é subjugado por instintos e hormônios incontroláveis. De que uma vida de mentiras era a única alternativa viável, já que vocês, por sua natureza pura e fiel, jamais nos compreenderiam.

Veio a revolução de costumes do século XX. Vocês deixaram de ser as “rainhas do lar” e foram à luta. Conquistaram direitos iguais e descobriram, na troca de experiência ou nas revistas femininas, que crápulas dissimulados nós éramos.

A velha mentira masculina não cola mais. Numa curiosa reviravolta do destino, aconteceu o inesperado: donas de seus narizes e financeiramente auto-suficientes, vocês descobriram as delícias do sexo casual, a emoção da caça e o prazer de compartilhar suas aventuras nas rodas de bar.

Não estão erradas. É bom mesmo.

Só que jamais nos preparamos para sentir o gosto amargo de nosso próprio veneno.

Nós blefamos! Não temos cacife para bancar o jogo. De igual pra igual não queremos brincar. Admitimos que muito maior que o prazer do sexo é a dor da traição.

Não queremos ser cornos que inspiram piedade e nem bombeiros-objetos de peitos depilados. Temos medo da Luma de Oliveira. Temos pavor da Luana Piovani. E quando a Fernanda Lima diz na Playboy que prefere bilaus grandes, sentimos que os nossos são miseravelmente pequenos.

Perdão, mulheres. Erramos. Não podemos começar tudo de novo?

(Maurício Ricardo Quirino é presidente do Charges.com.br e péssimo jogador de truco)

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