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Editorial - 20/01/2004

Prefiro a Ilha Quadrada

O internauta Leonardo Soares Maia, de Belo Horizonte, escreveu um e-mail onde ele levanta um tópico curto mas interessante sobre os anúncios de verão da cerveja Skol. Ele simplesmente me pergunta que música eu prefiro: “Exército do Surf”, cantada por aquele pessoal desanimado da Ilha Quadrada, ou o baticum rave da ilha do lado, onde uma galera ligadíssima enche a cara com a cerveja “redonda”.

Resolvi escrever um texto mais longo sobre o assunto – ao invés de um comentário na seção de e-mails – porque acho essa questão muito válida: quem foi que disse aos publicitários que cantar “Exército do Surf” numa rodinha de violão, à beira de uma fogueira, numa praia maravilhosa, é programa de nerd?

Acabo de fazer 40 anos e não sou o público-alvo do anúncio, mas a maioria dos jovens interessantes que conheço não trocaria a festa rave pelo acampamento. Ou pelo menos curtiria os dois, de acordo com o estado de espírito. Afinal, sacudir o esqueleto e esquecer os problemas é um ótimo programa de verão, mas não é o único!

Pra conhecer gente legal, por exemplo, o acampamento é muito melhor. Fogueira e violão sob uma lua maravilhosa... Cenário perfeito pra jogar aquele xaveco. Isso, certamente, se você souber o que dizer. Se for um otário de cabeça vazia, melhor mesmo conversar por sinais sob um som techno ensurdecedor. Mas saiba: mais cedo ou mais tarde a festa acaba, vocês terão que conversar e aí seu mingau desanda.

Pra fazer sexo: vocês viram que, na Ilha Quadrada, atrás da fogueira, tem barracas com plaquinhas discriminando “Moças” e “Rapazes”? É claro que depois de muitas cervejas, mesmo as que não são Skol, a formalidade toda vai pro espaço. No anúncio, a turma “quadrada” está tímida porque a festa mal começou. Mais tarde, os grupinhos vão se misturar, as afinidades ficarão mais evidentes e como as barracas estão ali do lado... A ocasião faz o ladrão! A turma da rave, vai transar onde? Em alto mar?

Pra descansar: Ei, jovem também rala o ano inteiro e gosta de recarregar as baterias de vez em quando! Rave tem em qualquer cidade grande. Um belo ambiente natural já é um pouco mais difícil.

Música: É bem pessoal, mas acho que a Ilha Quadrada ganha também no quesito gosto musical. “Exército do Surf”, um clássico dos anos 60, tem um astral muito mais “cool” e descolado. E tá rolando ao vivo, com a participação da galera! Aposto que, na seqüência, vão pintar uns acústicos roqueiros interessantes e uns baladões da Legião Urbana ou do Radiohead.

Drogas: Finalmente, até no quesito “drogas ilegais” a Ilha Quadrada é menos arriscada. Em acampamento, quando muito, o pessoal fuma maconha. Já em festa rave costuma rolar ecstasy, que é muito mais perigosa.

Resumindo, gosto muito de Skol, que sempre foi minha cerveja “standard” (aquela do dia-a-dia), mas não posso concordar com os rótulos de “jovem” e “verão” da propaganda. Aliás, todo rótulo dividindo a juventude entre os que são “cool” e os que são “nerds” soa babaca nesses dias em que, finalmente, a aceitação da diversidade começa a superar os ditames da moda.

Claro que uma festa rave agitadíssima pode ser ótima. Mas olha, gente, lido com jovem todo santo dia aqui no site, através de muitos dos 600 e-mails diários que recebemos. E posso garantir que, pra boa parte da galera, bom mesmo é tomar Skol sim, mas lá na Ilha Quadrada.

Maurício Ricardo Quirino, criador do Charges.com.br, no fundo acha essa discussão vazia: para ele, bêbado na praia bom mesmo é ouvir axé music.

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