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Editorial - 06/03/2003

Santo ou monstro?

Assisti àquele programa com o Michael Jackson que causou a maior polêmica nos EUA. O público – e o próprio entrevistador – se chocaram com a admissão, feita pelo cantor, de que ele divide seu quarto com crianças.

Num dado momento Michael chega a se mostrar muito ofendido com as insinuações de que seria pedófilo. Diz que “dividir a cama” não tem que ter obrigatoriamente conotação sexual e que o que ele sente pelas crianças do mundo é amor, puro e incondicional. Um tipo de amor, segundo Michael, “do qual o mundo muito precisa”.

Ando numa fase bastante zen. Por um momento, pensei: e se o cara estiver falando a verdade? E se for mesmo uma alma elevada, que ama a companhia das crianças e gosta de estar com elas? “Vinde a mim as criancinhas”, disse Jesus. Eu não tenho a menor paciência com os baixinhos, mas será que amar os filhos dos outros, sem sacanagem, é um privilégio só do filho de Deus?

Bom, fiquei matutando sobre isso no domingo, dia em que o canal Sony exibiu o programa no Brasil. Até ouvi “Thriller”, o disco mais vendido do mundo, e relembrei o grande artista que o Michael foi no passado. Imaginei a possibilidade de que ele seja um cara inocente, massacrado pela imprensa sensacionalista. Alguém que teria destruído a própria cara, com sucessivas cirurgias plásticas, e abdicado de sua cor e suas raízes pelas razões sugeridas no especial de TV: uma infância traumática, com trabalho quase escravo sob o pulso forte de um pai violento.

Uma vez, em 1993, ele chegou a ser processado pela família de um de seus “amiguinhos”, de quem teria abusado sexualmente. E gastou alguns milhões de dólares pra abafar o caso, alegando não suportar o constrangimento. O mundo não engoliu a história, muito menos eu. Mas e se ele fosse realmente inocente? – pensei naquele domingo. A seu favor, uma constatação: sendo Michael um pedófilo incurável, é de se espantar que, nos últimos dez anos, nenhum outro caso tenha pipocado na imprensa.

Em resumo, estava bem disposto a rever meus conceitos – nada positivos – sobre Michal Jackson (aliás, grande coisa: pra ele, o que eu penso não faz a menor diferença...). Até ler, nos jornais de ontem, outro caso escabroso envolvendo o Rei do Pop: ele teria pago US$ 150 mil para, num ritual Vudu, tentar causar a morte de Steven Spielberg e outros desafetos. O “trabalhinho” envolveria o sacrifício de animais, e a razão pela qual o cantor odiaria tanto o pai do ET chega a ser ridícula: Michael queria a cabeça de Spielberg porque não foi escalado para viver Peter Pan (seu personagem preferido) num filme do diretor.

Este não é o tipo de coisa que combina com um cara tão puro que ama todas as criancinhas do planeta. Mas se encaixa como uma luva no comportamento de um pedófilo milionário e cheio de manias, um monstro deformado e pervertido capaz de construir uma “Disneylândia” em casa só pra seduzir suas vítimas mirins...

E então? Vítima inocente da mídia? Pedófilo que compra a sua impunidade?

Talvez o mundo nunca conheça a verdade. Só sei que, mesmo se for mais uma invenção ridícula da imprensa, essa história do vudu veio em boa hora. Afinal, zen ou não, sou cético por natureza e não estava nem um pouco confortável com a imagem do Michael bonzinho que começou a se formar na minha cabeça crítica de chargista.

Porque, gente, fala sério: vê lá se marmanjão de 44 anos vai continuar dividindo o quarto com filhos dos outros, mesmo depois de ter sido acusado de pedofilia e tendo uma imagem pública pra zelar! Ninguém seria tão besta.

Logo, voltei a acreditar na tese do Michael Jackson pervertido.

(Maurício Ricardo Quirino, presidente das Organizações Charges.com.br, achou os últimos discos do Michael Jackson um porre)

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