Charges.com.br

em

Editorial - 30/01/2003

Miss Brasil 2000

Sou muito fã da Rita Lee. Especialmente a Rita pós-Mutantes e pré-Roberto de Carvalho, aquela que com a banda Tutti-Frutti – todos roqueiros com cara de bandido – ajudava a demolir a caretice com suas canções irônicas e muito ousadas.

Na época do Tutti-Frutti eu ainda era muito jovem pra entender a mensagem de Rita. Acabei curtindo sua banda e seus discos – todos gravados nos anos 70 – bem mais tarde. Hoje fico bobo de ver a coragem que ela teve ao discutir abertamente sexualidade, drogas e outros temas polêmicos, em plena ditadura militar e num tempo em que as mulheres ainda enfrentavam um preconceito enorme no Brasil.

Rita atravessou a década de 70 equilibrando-se entre o estrelato e o underground roqueiro. Depois, ao lado do marido e parceiro Roberto de Carvalho, produziria dezenas de hits românticos e obteria enorme sucesso popular.

“Babilônia”, seu disco de 1978, é o último com o Tutti-Frutti e mostra a Rita roqueira e visionária em sua melhor forma. Quase todo o trabalho continua impressionantemente moderno. Em “Agora é moda”, por exemplo, ela dizia: “Agora é moda / Sair nua em capa de Revista / Bionicar o corpo inteiro / culpar o mercado estrangeiro”. Quer coisa mais atual?

Mas me lembrei da Rita por causa de outra faixa do disco: “Miss Brasil 2000”. Nela, a mãe do Beto Lee tenta imaginar como seria a Miss Brasil do Terceiro Milênio: “Será que ela vai continuar uma tradição? / Será que ela quer modificar uma geração?”, perguntava o refrão.

Como uma mulher liberada e libertadora, que viu no fim dos anos 70 todo seu esforço transformador gerando frutos, Rita tinha razão para ter uma visão otimista da Miss Brasil 2000. Na letra ela descreve essa “senhorita que nunca se viu” como uma garota linda e descolada.

Bem, 25 anos depois, já podemos responder àquelas perguntas que nossa roqueira dos cabelos vermelhos fazia no refrão.

“Será que ela vai continuar uma tradição?”. Continuar, não continuou: ela agora participa de reality shows – tipo de programa impensável nos anos 70 - e o concurso Miss Brasil anda tão caidaço que só assim o País foi prestar atenção em sua representante.

“Será que ela vai modificar uma geração?”. Infelizmente não, Rita. Acho que a maior contribuição das misses hoje em dia será ensinar a fazer coisas como soletrar o A, E, I, O, U arrotando.

Ah, claro: e bionicar o corpo inteiro.

(Maurício Ricardo, presidente das Organizações Charges.com.br, continua fã da Rita mas não assiste Saia Justa porque não tem GNT em casa)

Outros Editoriais

Página 1 de 3

1 2 3 Próximo

Fale Conosco

Enquete

Assine o feed do charge. O que é isto?