Editorial - 19/07/2007
Minha charge sobre a tragédia de Congonhas
Na polêmica charge de 19/07/07 sobre a tragédia do vôo 3054 da TAM (ótima nota, muitos elogios, mas muitos internautas irados) tive um cuidado: descrevi o que acredito ser uma cronologia ilustrativa da crise - e seu ápice terrível - utilizando apenas citações literais, de diferentes personagens ligadas ao apagão aéreo.
Está lá o Lula e sua "prioridade zero". Estão lá Marta e Mantega com suas frases inconseqüentes. Está lá o ministro da Defesa prometendo "fluxo e segurança a qualquer preço". Em seguida vem a Infraero dizendo que o tal "grooving" não é problema. Vem o derrapagem do avião da Pantanal. Vem o presidente do Sindicato dos Pilotos dizendo que falta de "grooving" é, sim, um problema. E enfim, a tragédia.
Continuo crendo que as frases foram apresentadas na charge em uma seqüência coerente e responsável.
O argumento mais usado pelos internautas que discordaram, classificando a peça como tendenciosa e "anti-Lula", foi o de que eu teria ignorado o vídeo divulgado pela Infraero, que mostra o Air Bus em alta velocidade. Outros internautas questionaram a não inclusão na charge da declaração do superintendente de engenharia da Infraero, Armando Schneider Filho, que foi categórico ao afirmar: a pista não causou o acidente.
O que os meus críticos talvez não tenham notado é que não usei uma única afirmação posterior ao acidente: todas as citações foram proferidas antes da explosão do Air Bus.
Por uma razão óbvia: depois de consumados os quase duzentos óbitos, claro que todos os setores responsáveis pela aviação civil no país, a companhia aérea e até o fabricante da aeronave apresentarão seus argumentos defensivos, pelo menos até o término das investigações.
Quem quer ser o pai dessa criança nefasta? Ninguém.
Mas é curioso que alguns defensores do governo me chamem de "precipitado", mas não considerem precipitado o superintendente de engenharia da Infraero, com seu clarividente "laudo de inocência" da estatal.
Só as investigações poderão precisar as causas do acidente, concordo. Aliás, a cada dia aparece um dado novo: hoje divulgou-se, por exemplo, que o avião tinha um problema no reverso. Culpa da TAM? Do fabricante? Culpa do piloto que falhou na tentativa de arremeter? Aguardemos os próximos capítulos.
Mas a acusação de que "prejulguei" o governo neste episódio, desculpem-me, soa como mais um dos inúmeros casos de cegueira coletiva na já surreal cena política brasileira.
Vamos aos fatos (sim, fatos, não suposições): uma pista é reaberta antes do término das obras. Dez pilotos reclamam à torre das condições de segurança. Um avião derrapa. Um representante sindical dos pilotos confirma sua crença de que há perigo.
Que outro sinal de alerta seria necessário para que as autoridades competentes fechassem a pista principal de Congonhas?
Ainda que tenha havido falha humana ou falha mecânica: será que o acidente teria o mesmo desfecho se os pousos de aeronaves de grande porte tivessem sido todos transferidos para o aeroporto de Guarulhos?
Achei sim, no calor da hora, e continuo achando que o governo foi omisso.
Não se trata de repudiar o Lula ou de servir aos interesses de outros grupos políticos. Mesmo porque vejo o País, no aspecto ético e administrativo, numa espécie de limbo, sem soluções à vista.
Trata-se da minha relação de cidadão com o governo sob o qual vivo, trabalho e crio meus filhos.
Trata-se do meu direito de manifestar indignação e cobrar.
Maurício Ricardo Quirino. Jornalista, cartunista e criador do Charges.com.br
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