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Editorial - 02/09/2008

Mistério na TV Justiça

Está circulando na Internet um vídeo curioso: durante os trabalhos do Supremo Tribunal Federal (STF), os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa batem boca ao vivo, com transmissão pela TV Justiça.

Reproduzo abaixo um trecho do diálogo:

Barbosa - Ministro Gilmar, me perdoe a palavra... Isso é jeitinho!

Mendes - Não vou responder a Vossa Excelência...

Barbosa - Nós temos que acabar com isso!

Mendes (alterado) - Não! Vossa Excelência não pode pensar que pode dar lição de moral aqui!

Barbosa - Não quero dar lição de moral...

Mendes (mais alterado) - Vossa Excelência não tem condições!

Barbosa (sorrindo com muita ironia) - Vossa Excelência tem?

Mendes - (diminuindo o tom, mas ainda nervoso) - Eu pergunto se Vossa Excelência tem!

Barbosa, que estava inclinado para frente, recosta-se na cadeira, sem falar nada. Mendes remexe-se inquieto.

Mendes - Ora...

E continuam discutindo, em tom mais brando e sem troca de agressões.

O que me chama a atenção aqui é a expressão "Vossa Excelência não tem condições" (de dar lição de moral), usada por Mendes, e a resposta irônica de Barbosa: "Vossa Excelência tem?".

Deve-se relevar uma expressão infeliz ou mal empregada, no calor de uma discussão. Mas quando se trata do diálogo entre dois ministros da mais alta esfera do Judiciário brasileiro, transparentemente transmitido por uma TV pública, as palavras ganham um peso muito maior. Primeiro pela importância da instituição e de seus representantes. Segundo por serem ditas por pessoas que, por formação e ofício, são especialistas justamente... no uso das palavras.

"Condições", senhores ministros? Um não tem "condições" de dar lição de moral no outro, e por isso ambos dão a discussão por encerrada?

No linguajar popular todos sabem o sentido da palavra nesta situação específica: não tem condição de nos dar lição de moral aquele que julgamos não ter moral para tanto.

Juridicamente - eu pesquisei - "condicionado" está aquilo que depende da realização de um ato ou evento futuro e incerto.

Enfim, ainda que Barbosa e Mendes estivessem se referindo às "condições" dos ministros do STF - autoridade, prerrogativas, hierarquia e até à liturgia do cargo - a palavra soaria inapropriada.

Eu, que não sou doutor, se ouvisse uma acusação dessas, reagiria na hora: "Por que não tenho condições? O que Vossa Excelência está insinuando na frente das câmeras de TV?". Mas Barbosa responde com um silêncio enigmático e outra pergunta: "Vossa Excelência tem?".

Ambos se dão por contente. Eles são sabedores da falta de "condições" que um tem de dar lição de moral no outro. Mas esquecem-se de que, em casa, os telespectadores da TV Justiça, leigos que são, não sabem. E ficam com a resposta em suspenso, como o mistério de uma novela.

Não se trata de lançar dúvidas sobre a moral de Barbosa e Mendes. Por princípio, todo ministro do STF tem moral ilibada.

Mas acredito que, como eu, outros que viram esse instigante pedacinho de vídeo estão curiosos.

Talvez a resposta tenha sido dada em outro momento da conversa.

Se eu perdi esse capítulo, alguém me conta?

Maurício Ricardo é jornalista e cartunista do site Charges.com.br

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